Apesar dos investimentos vultosos de detentores de mandato e candidatos à reeleição, Fortaleza registra um dos cenários mais apáticos dos últimos pleitos — e a indiferença se revela nas ruas
A campanha eleitoral de 2026 na capital cearense expõe um paradoxo difícil de ignorar: nunca se gastou tanto para conquistar o eleitor — e, ao mesmo tempo, nunca se viu tão pouco dele nas ruas. Enquanto os números das prestações de contas apontam para investimentos expressivos, sobretudo por parte de quem já ocupa cargos públicos e disputa a permanência, a cidade responde com um silêncio que contrasta com o fervor de eleições passadas.
O contraste salta aos olhos de quem circula pela capital. Em pleitos anteriores, era comum cruzar com avenidas tomadas por carros adesivados, uma verdadeira procissão de apoio espalhada por todos os bairros. Neste ano, a cena é outra: são raríssimos os veículos com adesivos de candidatos. Quando aparecem, quase sempre pertencem aos próprios postulantes, a parentes ou a cabos eleitorais — ou seja, o material de campanha circula, mas não decola. A adesão espontânea, aquela que transforma o eleitor em vitrine viva da candidatura, simplesmente não aconteceu.
O mesmo fenômeno se repete na paisagem urbana. Cartazes e fotos em casas e muros, outrora onipresentes, agora se concentram quase exclusivamente na periferia, nos bairros de população mais humilde. É lá, e somente lá, que o apoio público ainda se materializa em paredes coloridas e janelas decoradas. No restante da cidade, a indiferença tomou o lugar da militância.
O que explica esse esvaziamento? Analistas apontam um conjunto de fatores: o cansaço do eleitor diante de promessas não cumpridas, repudio popular diante da gastança e esbanjado de verbas publicas, onde prioridades como saude, segurança e educação permanecem esquecidas é que fazem a descrença generalizada na política institucional. É uma verdadedeira aberração o alto investimento em campanha, que desmascara a estrutura profissionalizada: cabos eleitorais pagos, impulsionamento de conteúdo e produção de material que circula mais nos bastidores do que nas avenidas.
Resta saber se esse silêncio se converterá em abstenção nas urnas ou se esconde, sob a superfície, uma decisão que será tomada em silêncio, longe dos adesivos e dos muros pintados. O que é certo é que a capital cearense vive, neste ano, uma campanha que gasta muito e mobiliza pouco — um sinal de que a política, nas ruas de Fortaleza, perdeu o entusiasmo que um dia teve.
Em resumo, as camadas mais pobres e menos esclarecidas são as que mais adesivam casas e se deixam levar por preferencias e discursos populistas eleitoreiros.